Deus lhes pague a construção da arte no palco da vida

 


Ainda no processo de descontrução, ando a beber Chico Buarque sem posologia, nem contra-indicações ou efeitos secundários. Bebendo de vários autores até saciar a sede de arte. As obras primas dele são soberbas, a forma malabarista com que brinca com os adjetivos e os verbos, alterando e confrontando a construção para a queda desconstrutiva de um modus operandi social é jocosamente bem conseguido. O poeta cria, a criação referencia a criatura e, ambos, a arte linguistica de esgrimir e provocar emoções. É esse o objetivo da arte. A arte não imita a vida, antes a representa e se inspira nela para criar.  

E do operário em contramão do Chico,  driblei ao ex-operário e mendigo principal de Joracy Camargo. E, ainda, com a crítica de Procópio Ferreira. O Procópio (que interpretou magistralmente a peça) assina o prólogo da obra de Joracy, enquanto crítico literário, dramaturgo e diretor artistico, declarando paixão pela peça camarguista. A obra encontra o seu primeiro cenário como pano de fundo em um funeral, no adro da igreja que recebe o funeral, servindo de leito e de deleite à própria vida, se extingue toda ela, na caixa onde se extingue a materialidade, o avesso da vida que outrora tivemos. A conjuntura social, política e económica engrandece a comédia trágica porque os seus personagens iniciais e fundamentais na peça são ambos mendigos, referidos, eles próprios, como tecido inerente à sociedade. São a purga dos pecadores. Existem para receber as sobras, os restos dos pobres ricos que lhes pesa o pecado e a infelicidade. Existem como ligação ao divino, esse Deus que perdoa a quem auxilia os desprivilegiados, esses mesmos 'economistas' que ao fazer uso das sobras dos ricos e da sua pesada infelicidade, se tornam simultaneamente ricos pela economia nos artefactos e pela simplicidade de um modus vivendi. Deus lhe pague narra a história de um ex-operário que, após ter sua invenção roubada e ser injustiçado, torna-se um mendigo filósofo. Enriquecendo com a esmola, ele critica a hipocrisia social, a exploração capitalista e o uso da caridade para aliviar culpas, tornando-se um mestre na arte de pedir.A peça desenvolve-se entre dois mendigos, duas faces da mesma moeda social, debatendo filosofia. Desde a estoicidade aos meandros mais elaborados da política, a estratégia e fuga simultânea ao peso das responsabilidades, do pagamento de impostos, de ter, possuir pedaços de terra, vidas fidalgas, brincando com a arrogância humana de acreditar possuir terra e água como bens próprios, ungida de sacrifícios que os mendigos dispensam. Um deles, à falta de moedas ao seu igual, lhe oferece beatas recolhidas numa caixa, ao que o outro agradece, lhe dispensando as beatas e oferecendo ao colega um charuto de havana. Tal como referi, a mesma 'moeda' com duas faces, tal como a sociedade de binómios e avessos. O mendigo pobre e o mendigo rico. O pensamento e a emoção. A inteligência e a exclusão social.  

A peça de teatro "Deus lhe pague" é o drible jocoso da descontrução da sociedade erguida em premissas falsas e imorais, de desigualdade, de engodo e de ditaduras sociais, de barganhas, de nascença de crenças e da continuidade delas, inúteis e irrisórias que denunciam prazos de validade fúteis. Tudo expira menos a arte e a lição. A leitura da obra torna-se uma pérola por ser contemporânea, gritante, aviltante  e soberba. É o retrato de mil e novecentos, sendo o retrato de dois mil e vinte e seis. Quão iluminado e refratante se vê o que cria da obra criada? 

Destaco a semelhança da crítica social satiríca com o Auto da Barca do Inferno  de Gil Vicente, embora este seja do século XVI; prova viva de que a arte reproduz eventos, molda pessoas, elenca retratos sociais, tão importantes para a história e a não repetição de erros. A história ensina, a arte sublinha o sublime que existe em cada um de nós, numa aproximação ao divino. A sociedade só enriquece o espólio quando aprecia as criações e usufrui das mesmas, retirando-lhes lições.

 

Deviam tornar-se obras de leitura aconselhável. Pelo teor. Pelo valor inestimável.  


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