O fim dos livros de bolso & Jerry Leichter

 


 

 

Tenho andado a matutar nisso, porque sou dessa era, em que os livros de bolso cabiam na bolsa diária, quando sentávamos para tomar um café, com a cafeína, engoliamos mais três ou quatro páginas do autor que acobertavamos dentro ou mesmo na mão, onde seguiam, connosco, vidas inteiras, que se mantinham misteriosas até lhe vermos o desfecho, por mais que já antecipassemos vários finais, com ou sem happy end. Hoje os livros de bolso foram substítuidos pelos iphones, e suas subcategorias de apps diversas, pelos tablets, pelos emojis sintetizados, pelas notícias dos diários lidos na transversal. Se os conservadores da minha época, por casualidade, se deparassem com as leituras dos clássicos em livros de bolso diriam algo como: Parece livro de criança ou então, mais vale ler isso que xutar pedras. Os clássicos também foram publicados enquanto livros de bolso. E quando o livro clássico era de consumo obrigatório por motivos escolares, se fosse um livro de bolso, o estudante ficava com a ilusão engordada que menos palavras, menos letras e quiçá menos capítulos condensaria a obrigatoriedade numa facilidade extra. O resumo da obra, sem necessitar de ler na íntegra. O cabotismo e a malandragem, a preguiça, por outras palavras. Aos que temiam as leituras exigidas. 

Mui longe vão os tempos inovadores dos livros de bolso, que surgiram mais tarde com autores mistério, suspense, thriller, aparte dos célebres romances e epopeias. 

Agora, os escritores continuam a escrever, os leitores continuam a ler mas no bolso levam com eles uma carga de preocupações e dúvidas que não lhes permite a deambulação pelos ditos livros em formato diminuto, que conspiravam com a cafeína e a nicotina de uma forma tão prazeirosa e de fácil arrumação, quando excedíamos o tempo de pausa no café, na sanita, na sala de aula, quando o professor fazia gazeta. Vivemos tempos de transformação onde o conhecimento nos é provido ou (des)contextualizado ou alterado, enviesado pela perspetiva do stress e do cansaço ou de qualquer outra circunstância e duvido que possamos voltar a um tempo de apreciação, onde possamos pausar as preocupações pela serventia do prazer em pausas, sem likes, sem influencers, sem filtros. A não ser os nossos próprios, os de colocar mercúrio a funcionar por nossa conta e risco e, perdoe-se a redundância, arriscarmos nos bons hábitos que foram elevados a conservadorismo ou anacronismo de há quatro décadas atrás. Um dia destes, o livro será extinto por não lhe encontrarem serventia ou será enviado para museus, contextualizando a existência "gris" de como nós, dinossauros, nos divertíamos, lá atrás, quando o sol era só o astro rei e a lua nos servia de cenário para as nossas deambulações mais fantasiosas, com o livro de bolso ou o éle pê, por companhia de sábado à noite, numa publicação Europa América. 

Na Word Smith Org, várias palavras, várias acepções a conceitos se vão digerindo com os comentários dos mortais que as usam, na plasticidade dos dias. Que as palavras fazem parte desse organismo vivo que é a língua, novilíngua, os neologismos e as suas praticalidades são tão diversas quase tanto como biliões de sujeitos no Universo (des)conhecido.

Tal como Jerry Leichter, um leitor anónimo, já redimensionei a vida, em casa e num contexto mais geral, na sociedade e não consegui encontrar o lugar para o livro de bolso, nem para os discos e as cassetes ou cd's descartados e substituídos pelos mp3, mp4, enfim, todo o tido de tecnologia que aniquila completamente com a utilidade e a vivacidade dos artefactos fora de uso. Chamem-me romântica, demodê ou velha do restelo. O livro de bolso é uma perda social. A biblioteca perdeu leitores. Encontrou investigadores e estudantes de licenciaturas e doutoramentos mas debate-se, a própria biblioteca com a sua funcionalidade, tendendo a ser enquadrada num futuro próximo associada aos museus. Trago da Wordsmith, a reflexão de hoje a cargo de John Updike, o escritor, e a óbvia dissertação existencial de um leitor, como eu, perdido entre os dejetos do novo mundo e as funcionalidades tornadas obsoletas por este.

 

"UMA REFLEXÃO PARA HOJE:
Menor que uma caixa de pão, maior que um controle remoto de TV, um livro comum cabe na mão humana com um aconchego sedutor, um toque de textura, seja na capa de tecido, na sobrecapa brilhante ou na lombada flexível. - John Updike, escritor (18 de março de 1932 - 2009)
 


Infelizmente, o formato "livro de bolso flexível" está com os dias contados. A Publishers Weekly publicou uma análise sobre o assunto.

A ReaderLink, uma das maiores (senão a maior) distribuidoras de livros, parou de distribuir livros de bolso no final do ano passado. Para livros físicos, a escolha agora é entre capa dura ou brochura comercial — o formato maior, mais caro, com capa de papelão flexível. O mercado de livros de bolso tradicionais vem encolhendo há anos — de 131 milhões em 2004 para 21 milhões em 2024. Editoras e livrarias estão satisfeitas com a tendência, já que a diferença de preço entre o livro de bolso e a brochura comercial é muito maior do que a diferença no custo de produção.

Um aspecto que nem o artigo nem qualquer discussão que eu tenha visto abordam: os livros de bolso comerciais são maiores em tamanho/volume, ocupando, portanto, mais espaço em armazéns e prateleiras do que os livros de bolso comuns. Isso inevitavelmente levará a uma diminuição no número de livros que uma livraria pode estocar.

Pessoalmente, isso me incomoda por dois motivos: quando estou na rua, um livro de bolso não cabe no bolso interno da jaqueta que uso com mais frequência. Enquanto isso, em casa, dimensionei minhas estantes — das quais tenho muitas — para acomodar livros de bolso. Livros de bolso precisam ser colocados deitados ou enfiados na horizontal. Nenhuma das duas opções é uma boa solução.

O fim de uma era..."

Concordo em grau, género e número. 


Comentários

Mensagens populares