Ella Foice & Rufus Versus

 


 

 

Operação Reciclar

Comunidades 

 

 

Podia ser mar ou navio,

um poema, o leito de um rio,

deleite, profano desvario, 

uma açucena, um desvio,

um jardim privado, ou, então

um planeta longínquo,  

mas escolheu ser intempérie

numa vertigem de liberdade

desenfreada,

e vestiu-se de vento

e rugiu aos marinheiros

e dobrou cabos sem esperança, 

rasgou bandeiras, calcou convés, 

estrebuchou os ditames,

verteu-se chuva nos canaviais

e desaguou, já despejado da ira

que o alimentara,

aos pés da mesma fonte

que o convidara a escolher

a ser o que bem quisesse,

e assim caiu, imbuído pelo

espírito de missão de ver-se sem força, 

e pretendendo partilhar

uma visão, um espaço, fê-lo

num omisso, oblíquo escasso desatino. 

Estava decidido. 

Não queria ser um palhaço

nem David e nem Golias,

antes um grão de areia minúsculo

no meio do areal, igual aos milhões

que o rodeavam,

para conhecer a verdadeira solidão.


Assim, nasce o ser humano, na

antevisão de um sonho, na antecâmara 

da trapaça, a desculpa para se ser livre

da sagrada célula nuclear, 

sem pingo de sensibilidade,

como jugo da leviandade,

cálida, gélida de um colo, 

aprendeu a caminhar nas quedas, 

lambeu as sarjetas como a lascívia manda

no solo, vulgo objeto de contratos nupciais

de golpes baixos, de berbicachos,

de uniões bastardas, 

de romances de fachada,

precisados de encarnar;

o vulto da inocência

que continua a medrar,

de feridas abertas, de golpadas

secretas, de artelhos promíscuos,

de contendas da inveja e soberba

e do desalinho, caber aí nesse canto, 

oh menino, está estabelecido 

o seu destino, dizem,

e vai conhecer a desumanidade

para mostrar, escolher, decantar

nos processos de se ser,

a verdadeira vertigem de ser livre

de ser autêntico, ainda que colocado

à margem da prolífera hipócrita

sociedade de náuseas formatada,

cuja origem se quedou p'lo  confortável 

desconforto do trauma.

 

E vai indo, vendo, 

lendo máscaras e energias, 

voando, crescendo

ah mas a vida é toda ela feita

de retalhos, de lições, de escombros

e de alunos e mestres que se aprimoram

para, na derradeira ameaça de emancipação,

lhe cortarem o esteio e cobrarem o pão

Ah menina, isso não! Fica aí tão bem,

como um cão de loiça, a adornar a coisa

a que chamam família, lar, mobília, 

guarde as suas verdades debaixo do tapete

do dealbar, só o que parece bem!

De albardas lhes fecham os olhos

como cortinas pesadas, que os querem cegos,

obedientes, crentes nos seus javardos alentos

de cristandade, que bondosos são, 

fazendo alarde aos primatas 

das cavernas mais retardas

O galo de Barcelos quebrou,

a ponte de Mizarela partiu,

o cão de loiça perdeu a obediência

a paciência e a sobeja congruência

de lhes aturar manias e ais...

 

Assim nasceram os rebeldes, 

os insubordinados, os que não cabem

e por isso são apontados com os

dedos sujos, pejados de limitações,

Vivemos na margem da vida,

escolhemos não ser a ferida e 

nem a consequência dela,

largamos a estultícia, da vossa 

manhosa e astuta mentira

vestida para nos enganar pelo engodo

que tentam vender, apregoar de lodo

que lemos na vossa conduta há c'anos,

Findou-se o tempo dos otários. 

É tempo de sermos batuta na orquestra 

regida pela divindade.

Verdadeiros humanos. 

Plutão muda de mãos, Urano saca a ceifa,

E em Áries, de braços de ferro e marra,

Saturno e Neptuno

distribuindo o Karma 

Acabaram as ilusões e devaneios.

Bem vindos ao caminho do meio, 

E num impulso comunitário, 

Vislumbramos já a era de Aquário.

 

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